sábado, 29 de janeiro de 2011

No covil: Pensamentos II.

"All man's alibis are unacceptable: no gods are responsible for his condition; no original sin; no heredity and no environment..." Kaufmann.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uivo cantado I.




É, sou um dos orfãos!

Pela liderança da matilha I.

A meia-noite ele chegou, no horário dos boêmios. A sua silhueta passou por minha porta ainda aberta. Trazia já pelo meio a garrafa de whisky, e um copo sem gelo na outra mão.

Não o encarei, já sabia quem era, e ele sabia usar aquele estranho olhar quando queria. E eu não queria falar com ele, mas nada podia fazer.

Caiu sobre meu sofá com um ar fúnebre.

- Tá na fase pesada novamente? Apontei para a garrafa.
- Nunca sai... Disse ele carregado de embriaguez e do sotaque francês.
- Isso lhe matou! Retruquei, mas sabendo do meu pecado.
- Dizem que o cigarro mata antes! Acendeu um cigarro, que iluminou seu rosto, seus óculos e o olhar reconhecível em qualquer lugar.

A fumaça encheu minha sala, na TV passava algum documentário sobre engenharia, e deixou azul o vaporado. Ele simplesmente começou a falar:

- Fico perguntado o que você não entendeu, e o que aconteceu com todo aquele impeto que você tinha, agora você vive nesta roda viva de ganhar dinheiro para sobreviver. O engajamento pede e merece sacrifício! Tentei retrucar e ele levantou o copo, pedindo para parar.
- Você vai dizer que só tem adversários e não inimigos, eu sei... Eles usam agora da mesma tática de Goebbels, e sorriem enquanto infiltram em sua mente, mas já não seria aí uma inimigo? Não, você nem sabe por onde começar, você parece que ficou cansado, a vida chutou essa sua bunda e você não fez nada com o que lhe deram.
- Mas...
- Não! Você é produto de tudo que escolheu, você sabe disso, e que besteira é esta que o inferno são os outros?! As suas escolhas são suas, e era isso que o bigodudo cobrava, e não que todas as verdades são certas, mas você preferiu se embriagar e reclamar como o Hank! Um labirinto de canos...
- Nem tocar um instrumento você aprendeu! Tomou o resto do whisky do copo.
- Depois dos Beatles e os clássicos, fiquei sem graça! Pausa eterna.
- Ahh, você ficou muito bom em dá desculpas! Isso sim! Nunca tentou escrever?
- Não... Tentei, mas erro em lógica e gramática.
- Você não lia Shakespeare, Tolstoi, Fiodor, Dante, Thoreau, Kant?! Germinal! Droga, você leu Germinal. Você leu Steinbeck!! O que ficou?! Outra eternidade de pausa.

Levantou-se, e parado, olhando para mim, praguejou:

- Não foi para homens como você que eu escrevi.

Hoje realmente eu não queria falar com ele. Tentei tomar a garrafa enquanto ele sai, não tinha nada para beber na geladeira nem na estante. Nem um bar aberto nesta segunda maldita.

- Hoje você não vai ter nenhum alento! Disse ele.

E saiu, como chegou. Deixou-me nocauteado, sua esquiva e o direto no fígado estão perfeitos.
O que falar para um homem em que dizem que escreveu um livro baseado num copo de cerveja.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

No covil: Pensamentos I.

Tiamat e Marduk.


"A realidade é meramente uma ilusão apesar de ser uma ilusão muito persistente."

Albert Einstein

Diversidade e adversidade.



A humanidade sempre me fascinou. Não só uma forma de vida, mas como somos os animais mais adaptáveis, e mesmo que na pior adversidade, alguns de nós poderiam sobreviver.

Neste documentário de imagens fantásticas da BBC, sobre como somos tão diferentes e ainda tão iguais, lembro de meu lema de vida, mesmo sabendo que não é fácil:

"Pela diversidade e igualdade"


Gostaria de não ter temido o que vinha, e saído por ai, para conhecer realmente o mundo - Como diria Marcus Aurelius, um dos césares, só temos o momento agora, não temos o passado e o futuro, não tinha o que temer, não?. Como McCandless, escutado o chamado selvagem, e hoje falar de causa conhecida, e não só imaginada, que somos o que somos, porque somos diferentes entre nós.

"Não seremos capazes de modificar um único homem; e se alguma vez o conseguíssemos seria talvez, para nosso espanto, para nos darmos também conta de outra coisa: é que teríamos sido nós próprios modificados por ele!" Friedrich Nietzsche.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Todos os poemas têm lobos dentro II.




CONFISSÃO


esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Chimpanzés ou Bonobos.

Primeiro, esse video de Frans de Waal, um biólogo que estuda há muito tempo os primatas, e fala de uma coisa que já venho pensando, desde que li O animal moral.

E o outro é este artigo da série Questão de Ética - Sônia T. Felipe, de onde tirei o nome do post.

A natureza tem várias saídas, a maioria delas inatas, às vezes mais do que gostaria a nossa enraizada visão antropocentrica.

"You have your way. I have my way. As for the right way, the correct way, and the only way, it does not exist." Friedrich Nietzsche.

Todos os poemas têm lobos dentro I.


"A Queimada":

"Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita".

Lêdo Ivo.


É, Lobo Ivo, concordo com minha alma.
Mas os caninos devem mostrar seus dentes no átrio e na ágora,a verdade como cinzas alvejantes ao vento.

sábado, 22 de janeiro de 2011

A razão e a loucura falam da mesma coisa.


O excêntrico e genial Zizek e o simpático, e também genial, Touraine, falam de uma nova versão da eterna briga "da direita vs a esquerda".




Zizek, filósofo esloveno, fala sobre uma nova divisão:"Zizek identifica a emersão de um partido que se posiciona a favor do capitalismo globalizado, geralmente com relativa tolerância ao aborto, direitos homossexuais, religião e minorias étnicas. E, em oposição a esse partido, há um agrupamento popular anti-imigrantes cada vez mais forte, que está acompanhado diretamente por grupos neofascistas. Nesse ambiente de despolitização das administrações pós-ideológicas – que, para Zizek, conforma uma 'dinâmica perigosa' –, a única maneira de mobilizar as pessoas é provocar o medo (ameaça imigrante, por exemplo).". Esta é uma dura visão social, longe da plataforma política, centro-direita vs centro-esquerda, que atualmente se apresenta no ocidente, e que estendia as suas teias.



Touraine, sociólogo francês, fala de um movimento xenófobo entranhado no pensamento europeu, e antes disso, do mesmo capitalismo pós-globalizado, capitalismo que já fugiu do controle das potências de viés liberal, e no construto individual da sociedade pós-revolução e de um modelo, relutante é ele agora em afirmar, mas não encontra outra palavra, fascista.

No primeiro, o socialismo agora está na vez, pois é no social que se preserva o homem, ou a nossa humanidade. O segundo também, mas não enquanto socialismo, pois não há espaço para o social, mas enquanto direitos humanos, temos que combater a violência, e a do estado principalmente - soa como Derrida.

Está obscuro para mim, estão falando de uma nova "moeda", de um novo valor, mais cru, mais direto, e então mais entregue ao radicalismo? O que vem por ai, uma sociedade de valores axiológicos diretos, claros e distantes, que não há mais saída senão o combate violento "casa a casa", rua de baixo contra a rua de cima?

Mais viceral o conceito, mais dogmático e menos ético.

Alain, de cima de sua sabedoria, pode dizer que a crise que agora está será social, será então normal?

Aqui você assiste a Alain Touraine, Milênio - Globonews.
http://globonews.globo.com/platb/milenio/2011/01/17/dom-da-premonicao/

Novo link da entrevista.
https://www.youtube.com/watch?v=nV4ApCsTwyU


"O absurdo mantêm sua mente aberta." Dr.Seuss.

sábado, 1 de maio de 2010

Dia de fúria.



Eyjafjallajoekull, na Islândia.


Ah, pobres cachorros-de-palha! Pensamos que somos o câncer, e somos apenas craca no grande leviatã.


"Antes de existirem o oceano, a terra e os céus cobrindo tudo / a Natureza mostrava apenas uma única face no mundo inteiro. / Caos era seu nome: uma massa bruta, informe, / nada mais que um peso inerte e, nele acumuladas, / as sementes das coisas, num grande amontoado."

Metamorfoses de Ovídio (vv.5-9).

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Boa surpresa...





O Anti-herói

Mais uma vez ele beijou
No fim chorou, se arrependeu
Azar o seu se ele amou
Errou o coração que Deus lhe deu

Mais uma vez caiu no chão
Com emoção se reergueu
Peito gemeu com devoção
Dizendo: o coração ainda é meu

Mesmo assim por um triz
Ele diz que é feliz...

Mais uma vez ele comprou
O que ninguém ousou vender
O que você já rejeitou
Cuspiu, chutou, vai esquecer

Mais uma vez ele saiu
E o mundo viu que estava só
E na melhor ele sorriu
Pra dor mentiu. Era melhor

Mesmo assim por um triz
Ele diz que é feliz...

Mas uma vez ele saiu
E o mundo inteiro estava só
E na melhor, ele mentiu
Sorriu, fingiu que tinha dó

Mas uma vez ele olhou
Pro que você sonhou comprar
Cuspiu, chutou e rejeitou
O que você não vai lembrar

Mesmo assim por um triz
Ele diz que é feliz...

Mas uma vez subiu do chão
Com o coração se emocionou
Corpo tremeu em gratidão
A esperança, ele ganhou

Enfim uma vez ele beijou
A boca que não pôde ter
Azar o seu se ele amou
É tarde pra se arrepender

SeuZé.
http://www.seuze.net/novo/multimidia.php

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

HC SVNT LUPINUM.




A frase "HC SVNT LUPINUM", que não sei se está correta, é uma analogia a frase em Latin "HC SVNT DRACONES" ou "HIC SUNT DRACONES", que diz: "Aqui há dragões.", em uma referência aos mapas antigos (Cartografia medieval), onde assim era grafada as regiões desconhecidas, cheias de monstros, e a mais famosa grafia está no Lenox Globe .





Há ainda outras referências ao reino dos dragões de Marco Pólo, onde ele descrevia a Sumatra (ou toda a costa da Ásia), também assinalada no Lenox.


A esta idéia, associo ao que me é desconhecido, ao que a noite uiva ao longe por querer se fazer conhecido, e a este chamado respondo com outro uivo, com toda matilha que se agita no meu coração. HC SVNT LUPINUM, aqui há lobos, e é eles, a matilha, que respode a este chamado.


E que o desconhecido, com seus monstros, serpentes e dragões, seja o meu destino.



"A cauda e a cabeça, ocasionalmente emergia na espuma de água e sangue, e da bruma escutamos um bramido, tão fúnebre, sobrenatural, a expressão de uma agonia profunda, que um frio gélido de horror percorreu as nossas veias."

Capitão Jason Seabury, do baleeiro Monongahela, 1851.