quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Saudações Lupinas: Bukowski.


Hoje o Anjo caído faria 92 anos.



Uma janela de vidros espelhados


cães e anjos não são
muito diferentes.
frequentemente vou comer nesse
lugar
por volta das 2h30 da tarde
porque todas as pessoas que almoçam
ali estão particularmente arruinadas
felizes pelo simples fato de estarem vivas e
comendo feijão
próximas a uma janela de vidros espelhados
que impede a passagem do calor
e não deixa que os carros e as
calçadas cheguem no interior.

podemos tomar quanto café
de graça quisermos
e nos sentamos e em silêncio
bebemos café preto e forte.

é bom estar sentado em algum lugar
neste mundo às 2h30 da tarde
sem sentir-se carneado até o
branco dos ossos. mesmo
estando arruinados, sabemos disso.

ninguém nos incomoda
não incomodamos ninguém.

anjos e cães não são
muito diferentes
às 2h30 da tarde.

tenho minha mesa favorita
e depois de terminar
empilho os pratos, pires,
o copo, os talheres
com cuidado -
faço à sorte minha oferenda -
e lá fora o sol
segue trabalhando bem
descrevendo
seu arco
enquanto aqui dentro
reina
a escuridão.

Charles Bukowski




"O maior poeta americano"
Sartre.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A que serve a ecologia.


“É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear 
a demarcação entre a política da emancipação e a
política do medo na sua forma mais pura. De longe, a versão predominante
da ecologia é a da ecologia do medo – medo da catástrofe, humana ou
natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo destruir a
civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as oportunidades de
se converter na forma ideológica predominante do capitalismo global, um
novo ópio das massas que sucede o da religião. Assume a função
fundamental da religião, aquela de impor uma autoridade inquestionável
que estabelece todo limite. Apesar de os ecologistas exigirem
permanentemente que mudemos radicalmente nossa forma de vida, é
precisamente isso que subjaz a essa exigência no seu oposto, isto é, uma
profunda desconfiança em relação à mudança, em relação ao
desenvolvimento, em relação ao progresso: cada transformação radical
pode conter a consequência inestimada de detonar uma catástrofe. É
exatamente essa desconfiança que converte a ecologia em um candidato
ideal para tomar o lugar de uma ideologia hegemônica, pois faz eco da
desconfiança em relação aos grandes atos coletivos.” 

Trecho entrevista de Zizek para revista Unisinos.



 http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2011/05/slavoj_zizek_e_o_movimento_
amb/






Acho que a cissão com natureza é temerária, colocar a cultura, e no fim a ciência, como possibilidade de distanciamento daquela, acreditando que seria a única forma de romper a inserção do homem no natural, a última consequência, seria afirmar a dicotomia, na procura da imortalidade.

Mas é no contra-ponto, na necessária ilusão que vivemos para entender a realidade que quero me ater, é nisso que se afirma o homem, e daí vem o sentido, mesmo que temporário da sua vida, e isso não pode ser tirado, mesmo diante da tragédia, mesmo da impossibilidade de vence-la. A ousadia dele seria cobrar essa afirmação, sem ser tolhido por qualquer moral ou ideologial, seja cultural ou natural, acho que aí que está o seu incentivo.


Ainda neste ponto, coloco a questão social, a vida em sociedade foi condição natural, até mesmo a partir dos instintos, para sobrevivermo na natureza, não como inimiga, mas como ambiente, como cenário de nosso ato. Assim, mesmo com a tragicidade da vida, há de se ter alguma resistência, se não pela tentativa de se vencer o fenômeno, que seja pelo menos para reduzir suas sequelas, senão nem importa a ciência, bastaria nos entregarmos ao destino. E não foi assim que aqui chegamos.

No final, o que temos mesmo é nossa cultura, e uma certa responsabilidade por sermos testemunha de toda diversidade, de toda impossibilidade, considerando o instante de equilíbrio casual,e de alguma forma, não sermos o estopim de qualquer coisa que antecipe a nossa destruição. Chegar ao abismo sem inicialmente querer saltar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O uivo...


‎...
Epifanias... Geração louca! 
Jogados Nos rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso no santo rio! Eles viram tudo! O olhar
selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus!
Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando
flores! Rio abaixo! Rua acima!
... 




Allen Ginsberg, O Uivo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Esperança




Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos! Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu bocado de amor. Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho? Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro. Há, entre vós, bastante porteiros? Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar. O que quer que aconteça, nas aflições, pesar... Chamai-me! Um sujeito engraçado pode ser útil. Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos. Eu amei... mas é melhor não mexer nisso. 


Te sentes mal?


Vladimir Maiakovski



domingo, 8 de julho de 2012

Feno para cavalos.





Feno para os cavalos


Gary Snyder


Ele guiava metade da noite
De muito abaixo de San Joaquin
Através de Mariposa, subindo as
Estradas perigosas do morro,
E arribou pelas 8 da manhã
Com seu baita carreto de feno
atrás do celeiro. 
Com guinchos e cabos e braço
Empilhamos os fardos em cima
De vigas de sequóia espaçadas
Alto na sombra, flocos de alfafa
Rodando pelas telhas-frestas de luz,
Comichar da poeira do capim seco na
camisa suada e nos calçados.
No horário do almoço sob o carvalho
Na entrada do estábulo abafado,
---A égua velha fuçando no cocho,
Gafanhotos ziziando nos matos---
"Eu tenho sessenta e oito" disse ele
"Na primeira carga de feno eu tinha dezesseis.
Eu pensei, naquele dia em que começava,
Por certo odiaria fazer isto toda a vida.
E dane-se, não foi mais nada
O que eu fui e fiz."


Tradução Adriandos Delima




domingo, 1 de julho de 2012

O seu reino.




Diogenes went on to tell the king that he did not even possess the badge of royalty...


“What is this badge ?” inquired Alexander.


“Have you not heard farmers say, ” asked the other, “that this is the only bee that has no sting since he requires no weapon against anyone? For no other bee will challenge his right to be king or fight him when he has this badge. I have an idea, however, that you not only go about fully armed but even sleep that way. Do you not know,” he continued, “that is a sign of fear in a man for him to carry arms? And no man who is afraid would ever have a chance to become king any more than a slave would.


sábado, 23 de junho de 2012

Imortalidade.

Turritopsis dohrnii


Imortalidade


"Um dia, dirão: "Bukowski está morto", e daí serei verdadeiramente descoberto e pendurado em fedorentos e brilhantes postes de luz. E daí? A imortalidade é uma estúpida invenção dos vivos. Não estou competindo com ninguém, não tenho ilusões com a imortalidade, não estou nem aí pra ela. É a ação enquanto você está vivo. Os partidores se abrindo na luz do sol, os cavalos mergulhando na luz, todos os jóqueis, bravos e pequenos diabos em sua seda brilhante, indo fundo, fazendo acontecer. A glória é o movimento e a audácia. Que a morte se foda. É hoje o que importa. É hoje e hoje. Sim."
Charles Bukowski.


Não, Hank, a imortalidade já tinha sido inventada antes dos homens.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sobre a violência...







SOBRE A VIOLÊNCIA

A corrente impetuosa é chamada de violenta 
Mas o leito do rio que a contem 
Ninguém chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?

Bertold Brecht. 



http://alifanfarrao.blogspot.com.br/2012/02/bertolt-brecht-100-textos-escolhidos.html 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Under African Skies.





25 anos de Graceland de Paul Simon, lindo disco, o povo é mais ainda. Saqueados, capturados, e sorriem sobre o seu céu.




terça-feira, 1 de maio de 2012

Ainda com fome!




"Sou cidadão, sou mineiro, sou cidadão limitado por fronteiras fatais. Creio no homem, creio na justiça, creio na liberdade. Desejo que a vida de meus filhos e de todos os que vierem depois de mim seja melhor do que a minha. Desejo firmemente a utopia. Creio na utopia. Afinal, o Brasil não precisa ser permanentemente infeliz. Precisamos ter pressa e urgentemente ter orgulho do Brasil."


Otto Lara Resende,São João del-Rei, 1 de maio de 1922 - Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1992.


Nesse 1º de Maio, dia do Trabalho, com história de lutas contra a injustiça e o abuso das empresas, homens, contra trabalhadores, outros homens.

Há anos, 31 para ser exato, tivemos atentados com bomba, pela direita e militares, que forjavam situações contra os trabalhadores na festa do Riocentro, tentando reinstalar o terror e o medo. Hoje temos os mesmo shows, mas estamos com muitos daqueles na elite, os representantes daquela época, o movimento de forças os colocou no poder, com luta e perdas inquestionáveis, mas... Pouco mudou, e aquela festa que era representação da luta, passou a ser uma idiotização da luta, com intuito de festa ideológica e improdutiva, como se não tivesse mais nada para evoluir, a não ser as questões de classes sindicais específicas ou direitos trabalhistas individuais e egoístas sem expressão social.

Naquelas dias, Gonzaguinha disse: "No meio do espetáculo, durante o espetáculo, explodiram, eu disse explodiram duas bombas.", creio, que estas bombas serviram para fortalecer a idéia, o movimento, mas elas não mais ecoam em nossa sociedade.

E quem nos representa, e são os senhores da hora, sentam abastados sem revolta e indignação, não nego que evoluimos, mas afirmo, com a mesma convicção, que continuamos com fome.

Vamos a luta!?

Essa música e esse menestrel ainda estão vivos.



domingo, 29 de abril de 2012

O que vem da Bahia...


"Minha oposição a religiões não dá direito a ninguém de insinuar que só acredito na ciência ou mesmo que sou ateu. Se ateu é aquele que não acredita em UM Deus, então podem até chamar-me assim, mas eu apenas repudio o Deus absoluto dos monoteístas, sobretudo dos cristãos. Não tenho nada contra mitologia grega, hinduísmo, candomblé, xintoísmo, taoísmo... O que não posso conceber é um Deus racional e único que organizaria o universo, porque simplesmente eu não acho o universo tão racional e organizado quanto religião E ciência pensam. Quando eu tenho que escolher entre ciência e religião, prefito a ciência por motivos epistemológicos, pelo fato de a ciência ao menos conceber que pode estar errada e já saber atualmente que seu conhecimento é sempre insuficiente, coisa que as religiões monoteístas não fazem. Eu acredito (e faço questão de dizer que é só uma crença arraigada em mim, não é uma certeza nem quero que o seja) que o universo SE forma (não é criado) a partir de forças irracionais, autônomas e impossíveis de serem concebidas, reveladas, verificadas ou percebidas por meios científicos ou religiosos... e que a interação conflituosa dessas forças, sua tensão e tensa estabilização em cada momento considerado (momento que poder durar bilhões de anos), forma sempre alguma coisa que parece ordem e que a ciência e a religião tentam explicar, descrever ou prever sistematicamente. Se sou contra religião e ciência é porque elas concebem que o mundo é tão monótono que suas leis e regras estão (ao menos em linhas mais gerais) essencialmente dadas desde sempre e que por isso podem ser reveladas ou descobertas; e eu não quero essa monotonia, quero a possibilidade de o mundo criar-se e recriar-se sempre, eternamente, a todo instante, sem inferno nem paraíso, quero que não haja vida após a morte para que ESTA vida seja rara e bela, digna de ser vivida por si e para si. Deus e a ciência são para mim apenas simplificações que não passam de adoração disfarçada ao homem e um profundo empobrecimento da vida. E o universo não precisa do homem nem de coisa alguma que este intitule deus. Para terminar, sei que o que eu penso não é pensado por ninguém e que a maioria pode dizer que estou louco, mas eu faço questão de pensar de tal forma que meu pensamento não seja o da maioria e que jamais possa ser completamente sintetizado em qualquer livro e por nenhum pregador, seja ele padre ou cientista, ambos para mim farinha do mesmo saco. Não preciso de "salvação" por parte do primeiro nem de explicação por parte do segundo. Arte e Filosofia me bastam para viver intensamente. Agora podem apedrejar, pois nem suas cruzes e Bíblias nem seus telescópios e microscópios mais potentes podem me fazer deixar de pensar como eu penso. Eu crio minha religião e minha ciência, só assim posso acreditar profundamente. Não escrevo para maiorias nem para um público determinado, escrevo apenas para que aqueles que pensam de forma PARECIDA com a minha não se sintam sozinhos nem precisem andar por aí tentando convencer ninguém."


Texto do filósofo baiano Waldísio Araujo, a que chamo de amigo.





Que fazer com este absurdo?



William Butler Yeats


A TORRE


I


Que fazer com este absurdo —
Oh coração, Oh inquieto coração — esta caricatura,
Esta decrépita idade que me ataram
Como à cauda de um cão?
Nunca tive
Mais exaltada, apaixonada, fantástica 
Imaginação, nem olhos e ouvidos 
Que mais esperassem o impossível — 
Não, nem na infância quando com cana e mosca, 
Ou o mais humilde dos vermes, subia a encosta de Ben Bulben 
E tinha onde passar o interminável dia de Verão. 
Parece que tenho de despedir a Musa, 
Eleger como amigos Platão e Plotino 
Até que a imaginação, olhos e ouvidos, 
Se satisfaçam com a argumentação e lidem 
Com o abstracto; ou permitir a troça 
Como se levasse um tacho velho nos calcanhares.




II


Caminho entre as ameias e contemplo
Os alicerces de uma casa, ou ali onde
Uma árvore, como dedo tisnado, se ergue da terra;
E para diante lanço a imaginação
Sob o luminoso dia que declina, e invoco
Imagens e memórias
De ruínas ou de árvores antigas,
Pois a todos interrogarei.


Atrás da colina vivia a senhora French, e uma vez 
Quando velas e candelabros de prata 
Iluminavam o escuro mogno e o vinho, 
Um criado que adivinhava sempre 
Todos os desejos de tão respeitável dama, 
Correu e com as tesouras do jardim 
Podou as orelhas de um labrego insolente 
E trouxe-as num pratinho coberto.


Alguns ainda se lembravam de quando sendo eu jovem
Uma jovem camponesa por canção louvada,
Que vivia algures nessas paragens rochosas,
Louvada pelas cores do seu rosto,
E com grande júbilo ainda mais louvada,
Lembrando que, ao passar pela feira,
Os labregos se acotovelavam
Tal a glória que conferia essa canção.


E outros, enlouquecidos pêlos versos,
Ou por ela brindarem tantas vezes,
Levantavam-se da mesa e declaravam justo
Provar com a vista tal fantasia;
Mas confundiram o brilho da lua
Com a prosaica luz do dia —
A música toldou-lhes a razão —
E um deles afogou-se no grande pântano de Cloone.


Estranho; quem fizera a canção era cego;
Mas, pensando bem, não acho
Nada estranho; a tragédia começou
Com Homero que também era cego,
E Helena atraiçoou tanto coração palpitante.
Oh, podem lua e sol parecer
Um raio inextricável
Pois se triunfar tornarei os homens loucos.


E eu próprio criei Hanrahan 
E ébrio ou sóbrio levei-o pela aurora 
De algures junto às cabanas. 
Apanhado nas armadilhas de um velho, 
Tropeçou, caiu, tacteou aqui e ali 
E como paga só teve os joelhos partidos 
E o horrível esplendor do desejo; 
Em tudo isto pensei há vinte anos:
Os amigos jogavam às cartas num velho estábulo;
E quando chegou a vez do antigo rufia
De tal modo com os dedos enfeitiçou as cartas
Que todas menos uma se transformaram
Em matilha de cães e não baralho de cartas,
E àquela em lebre transformou.
Frenético, Hanrahan levantou-se então
E as criaturas que ladravam seguiu até —


Oh, até onde já me esqueci — mas basta! 
Devo evocar um homem a quem nem o amor 
Nem a música nem a orelha cortada do inimigo 
Podiam, em tal tormento, alegrar; 
Figura já tão fabulosa 
Que não resta vizinho capaz de dizer 
Quando terminou o seu dia de canícula: 
Um antigo dono falido desta casa.


Antes de chegar essa ruína, durante séculos,
Rudes guerreiros, com jarreteiras nos joelhos
Ou de ferro calçados, subiam as escadas estreitas,
E havia guerreiros cujas imagens
Na Grande Memória guardadas,
Chegavam aos gritos e ofegantes
Perturbando o sono daquele que dormia
Enquanto os seus grandes dados de madeira batiam no tabuleiro.


Como a todos interrogaria, pois venham todos os que puderem;
Venha o velho, indigente e aleijado;
Venha e traga o cego errante que celebrou a beleza;
O homem vermelho que o prestidigitador enviara
Para esse prados abandonados por Deus; a senhora French,
De tão apurado ouvido;
O homem afogado no lodo do pântano,
Quando Musas trocistas elegeram a jovem camponesa.


Será que velhos homens e mulheres, ricos e pobres,
Que estas rochas pisaram, que por esta porta passaram,
Em público ou em segredo se indignaram
Como agora o faço eu contra a velhice?
Mas encontrei resposta nesse olhos
Impacientes por partir;
Sim, ide, mas deixai Hanrahan,
Porque preciso das suas poderosas memórias.


Velho libertino com um amor em cada vento,
Retira dessa mente profunda e pensativa
Tudo o que no túmulo descobriste.
Pois é certo que te dás conta
De cada aventura imprevista, cega,
Que suaves olhos tentadores,
Ou carícias ou suspiros atraíram
Ao labirinto de outro ser;


Mais se demora a imaginação
Na mulher ganha ou na mulher perdida?
Se na perdida, admite que te afastaste
De um grande labirinto por orgulho,
Cobardia, alguma parva e excessiva subtileza
Ou qualquer coisa que já se chamou consciência;
E que se à memória se recorre, o sol
Entra em eclipse e o dia em extinção.


III


É tempo de fazer o meu testamento; 
Escolho os homens que se erguem
Esses que sobem as correntes até
Às próprias fontes, e pela aurora
Lançam o anzol à berra
Da pedra que brota; declaro
Que herdem o meu orgulho,
O orgulho de quem
Nunca foi prisioneiro de Causa nem Estado,
Mas não aos escravos humilhados
Nem aos tiranos que humilham;
Sim às gentes de Burke e de Grattan
Que deram, podendo recusar —
Orgulho idêntico ao do amanhecer,
Quando se solta a temerária luz,
Ou o orgulho do corno fabuloso,
Ou do súbito aguaceiro
Quando secas estão todas as correntes,
Ou o orgulho dessa hora
Em que o cisne fixa o olhar
Num esplendor que se apaga,
Flutua num longo e derradeiro
Esforço pelas águas cintilantes
E canta a sua última canção.
E declaro a minha fé:
Rio-me do pensamento de Plotino
E grito na cara de Platão,
A morte e a vida não existiam
Até o homem tudo inventar,
Tudo conceber,
Tudo fazer com a sua alma amargurada,
Sim, e o sol e a lua e as estrelas; tudo,
E também a convicção de que,
Mortos, nos levantamos,
Sonhamos e assim criamos
Translunar Paraíso.
Fiz as pazes
Com sábias coisas italianas
E altivas pedras gregas,
Imaginação de poeta
E lembranças de amor,
Lembranças de palavras femininas,
Todas essas coisas de que
Um homem faz um sobre-humano 
Sonho semelhante a um espelho.


Como naquela seteira 
As gralhas gralham e gritam, 
E amontoam raminhos. 
E depois de amontoados, 
A mãe repousará 
Sobre o buraco ao cimo, 
Aquecendo o rude ninho.


Fé e orgulho deixo 
Aos jovens que se erguem 
E sobem a montanha, 
Para ao romper do dia 
Lançar o seu anzol; 
Desse metal fui feito 
Antes de o quebrar 
Este ofício sedentário.


Agora edificarei a minha alma,
Exigindo-lhe estudo
Numa escola sábia
Até a ruína do corpo,
A lenta decadência do sangue,
Colérico delírio
Ou torpe decrepitude,
Ou os piores males que venham — 
A morte dos amigos, ou a morte 
Do brilho dos olhos 
Que cortava a respiração — 
Parecerem nuvens no céu 
Quando o horizonte se desvanece; 
Ou o sonolento grito de uma ave 
Entre as sombras que se afundam.


trad. JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA.

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Em direção a Ítaca.




Quando você partir, em direção a Ítaca,
que sua jornada seja longa,
repleta de aventuras, plena de conhecimento.

Não temas Laestrigones e Ciclopes nem o furioso Poseidon;
Você não ira encontrá-los durante o caminho, se
o pensamento estiver elevado, se a emoção 
jamais abandonar seu corpo e seu espírito.
Laestrigones e Ciclopes, e o furioso Poseidon
não estarão no seu caminho
se você não carregá-los em sua alma.
se sua alma não os colocar diante de seus passos.

Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
que o prazer de ver os primeiros portos
traga uma alegria nunca vista.
Procure visitar os empórios da Fenícia 
Vá às cidades do Egito,
aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.

Não perca Ítaca de vista
pois chegar lá é seu destino.
Mas não apresse seus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos
e seu barco só ancore na ilha
quando você já tiver enriquecido
com o que conheceu no caminho.

Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem;
sem Ítaca, você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.

Se no final, você achar que Ítaca é pobre,
não pense que ela lhe enganou.
Porque você tornou-se um sábio, viveu uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca.

Konstantinos Kavafis

domingo, 8 de abril de 2012

Nada, nada existe.



Dream the dreams of other men
 You'll be no one's rival
Dream the dreams of others then
You will be no one's rival.




Saudações lupinas: Jane Goodall.


Super atrasado mas com toda a consideração possível...

Parabéns a Jane Goodall, primatóloga, etnologista a antropóloga, que aproximou o comportamento dos chimpanzés ao humano, onde a expressões de ternura e ódio componhe a matriz comportamental destas duas espécies. E esse trabalho foi árduo, de dedicação e renuncia, e em prol de se entender outra espécie.


Londres, 3 de Abril de 1934.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Saudações lupinas: Morre um gênio.


Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, *16 de agosto de 1923 +27 de março de 2012)


"O pôr-do-sol é de quem olha"

Millôr Fernandes.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Capitalismo perpétuo.

“Pode ser um moto perpétuo, mas levará uma eternidade para testá-lo”.

Cartum por Donald Simanek. 



"...máquinas de mentir, máquinas de castrar, máquinas de dopar: os meios de comunicação se multiplicam e divulgam democracia ocidental e cristã junto com violência e molho de tomates. não é necessário saber ler e escrever para escutar os rádios transistores ou olhar a televisão e receber o recado cotidiano que ensina a aceitar o domínio do mais forte e confundir a personalidade com um automóvel, a dignidade com um cigarro e a felicidade com uma salsicha."
Eduardo Galeano.





segunda-feira, 19 de março de 2012

A natureza e a arrogância.


O céu e a terra tratam miríades de criaturas como cachorros de palha.
Lao Tsé



domingo, 11 de março de 2012

MISUNDERSTOOD.